Vacinados e adotando cautela, sambistas veteranos começam a retomar projetos artísticos

Tia Surica, Bira Presidente, Noca da Portela e Haroldo Costa estão envolvidos em diversas atividades culturais

Sambistas vacinados retomam seus projetos. Na foto, Tia Surica em sua casa.Estefan Radovicz

Quando fez 70 anos, em 2010, Tia Surica promoveu uma grande festa na Cidade do Samba para mais de 500 convidados. No aniversário de 80, em novembro de 2020, no entanto, a comemoração foi bem mais discreta, do jeito que a pandemia permitiu, com uma live na quadra da Portela. Mas a baluarte ainda sonha com uma celebração à altura da data, quando for possível. “Quero fazer um grande show no Teatro Rival”, revela a sambista, que está lançando o terceiro álbum solo da carreira, após ser vacinada contra a covid-19. Além da pastora da Velha Guarda Show da Portela, a imunização tem permitido que veteranos como Bira Presidente, de 84 anos, Noca da Portela, 88, e Haroldo Costa, 91, possam retomar, aos poucos e respeitando protocolos sanitários de segurança, seus projetos artísticos.

Viabilizado pela Lei Aldir Blanc, o CD “Conforme Eu Sou”, que tem produção musical do craque Paulão 7 Cordas, traz 12 canções do lendário Manacéa (1921-1995), autor de sucessos gravados por Cristina Buarque, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Marisa Monte. O compositor foi o responsável pela entrada de Tia Surica na Velha Guarda, em 1980.

“Eu já frequentava a casa dele. Um dia, ele me chamou, pegou o cavaco e me pediu para cantar. Aí acabei fazendo participação num show, mas só depois é que entrei para o grupo. Por isso, sempre digo que devo muito ao Manacéa. Os jovens precisam conhecer mais Manacéa”, diz a sambista, que demonstra otimismo quanto à realização do Carnaval 2022. “Acho que vai ter desfile, sim, se a vacinação continuar direitinho. Estou na torcida”.

História do Cacique eternizada

Líder do grupo Fundo de Quintal e fundador do Cacique de Ramos, Bira Presidente está às voltas com a gravação de documentário sobre sua trajetória e comemora. “Fico feliz de receber esse reconhecimento. Tenho orgulho de pertencer ao grupo de samba mais premiado da história. Sou grato, também, por poder fazer o Cacique levar tanta alegria ao povo nos dias de carnaval”, resume.

As filmagens o ajudam a enfrentar o luto da perda de dois irmãos, Ubirany e Ubiracy, nos últimos meses. “Não tem sido fácil. Perdi dois irmãos e não estou podendo fazer shows, mas tenho a cabeça erguida. O que eu mais quero é poder abrir a quadra do Cacique, mas tudo depende da vacinação. Temos que ter cautela. O que vale é a vida, sempre, e o show há de continuar”, profetiza Bira.

Dirigido pelo jornalista Paulo Guimarães, o documentário sobre Bira Presidente deve ser lançado até o fim do ano. Paulo afirma que o maior objetivo da produção é eternizar a história do sambista que fundou o bloco Cacique de Ramos há 60 anos. “O Bira é o samba em pessoa. Nasceu e cresceu sempre rodeado por grandes nomes da música. Tem uma história incrível. Aí a partir da década de 1970 foi aquela explosão com a Beth Carvalho gravando sambas do Cacique e revelando compositores que eram crias de lá. Muita gente ainda precisa conhecer essa história, porque o Cacique é um patrimônio da nossa cultura. Então posso adiantar que o filme será bastante musical”, detalha o diretor, enfatizando que as gravações têm sido feitas de acordo com todos os protocolos sanitários de segurança. “Tem que ser assim”.

Bira também está envolvido em outra novidade: as celebrações dos 45 anos de carreira do Fundo de Quintal, grupo que revelou Almir Guineto, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Sombrinha e outros talentos. Nos últimos dias, os atuais integrantes se reuniram para a primeira sessão de fotos do projeto.

Ícone do Salgueiro não para

O ilustre salgueirense Haroldo Costa é outro exemplo de vitalidade. Três meses após apadrinhar o Sabiá, mascote oficial da agremiação da Tijuca, o ator, escritor, diretor, pesquisador musical e comentarista de carnaval está promovendo dois concursos via Lei Aldir Blanc: um de sambas de terreiro e outro voltado para passistas. Mais três projetos estão previstos até o fim do ano, todos em parceria com o produtor Robson Lo Bianco.

“As ideias surgiram justamente devido ao marasmo que estava dominando o mundo do samba. No caso dos sambas de terreiro, precisamos dar mais visibilidade a este gênero que quase não tem mais espaço nas quadras das escolas. Queremos revelar novos compositores e prestigiar também os antigos”, explica. As inscrições podem ser feitas no site wwww.sambadeterreiro.gruporjbproducoes.com.br até o dia 15 de julho. O prêmio para o primeiro lugar é de R$ 6 mil.

Autor de 15 livros, Haroldo tem mais uma obra pronta, só aguardando publicação. ‘Histórias do Brasil na Boca do Povo’ reúne 100 sambas-enredos que contam a história não oficial do país. “Enquanto minha saúde permitir, quero continuar dando minha contribuição para a cultura do samba”, completa o mestre, que agora também faz parte do time da Rádio Roquette-Pinto (94.1 Fm), fazendo participações no programa ‘Papo Reto’.

Parceria com Martinho da Vila

Autor de sucessos nas vozes de Beth Carvalho, Alcione e Paulinho da Viola, Noca da Portela acaba de ter uma composição gravada por outro mestre, Martinho da Vila, coautor da canção. “Vidas Negras Importam”, já disponível nas plataformas digitais, marca a retorno da parceria entre os veteranos, após 43 anos, como detalha Noca. “Martinho é um grande irmão, de muitos anos. Desfilei na Vila Isabel a convite dele em 1988, quando a escola foi campeã. Por isso, foi uma felicidade enorme compor de novo com ele. Fiz a primeira parte e liguei para ele. Cantei e ele gostou. Depois de três dias, ele tinha terminado a música, que é um calango. E a gravação ficou muito boa, me surpreendeu”, exalta.

Sem sair de casa na pandemia, Noca revela ter feito 30 músicas nos últimos meses, entre elas ‘Biografia’, com Ciraninho, e ‘O Dia Em Que o Mundo Parou”, com Darcy Maravilha e Edmar Júnior. Maior campeão de sambas-enredos da Portela, empatado com o saudoso David Corrêa, com sete vitórias, o compositor diz que ainda tem um grande sonho. “Quero ser campeão do carnaval com um samba meu”.

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