Vacinação de grávidas e puérperas com AstraZeneca foi um erro técnico, diz especialista

Imunização para gestantes e mulheres puérperas com comorbidades foi suspensa no Rio por recomendação da Anvisa. Confira os municípios que seguem vacinando com Coronavac e Pfizer

Vacina Oxford-AstraZenecaAFP

Rio – Após recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a imunização contra a covid-19 com a vacina da Oxford/AstraZeneca para gestantes e mulheres puérperas foi suspensa no estado do Rio. Por orientação do Ministério da Saúde, serão aplicadas apenas as vacinas Pfizer e CoronaVac, de acordo com a disponibilidade de doses em cada município. Especialistas afirmam que o erro está no uso técnico dos imunizantes.

“Nós devemos seguir exatamente as especificações técnicas, dadas pela bula de cada fabricante, visto que os estudos estão muito direcionados e nós não temos estudos longos, porque, simplesmente, não tivemos tempo para isso ainda. Então, a nossa obrigação é seguir a especificação técnica da bula e a bula da AstraZeneca, ela não tem indicação para gestante e mulheres no pós-parto, porque os estudos de grupo não contemplaram essa população. Então, se não foi feito estudo, essa vacina não pode ser aplicada na gestante e nas puérperas”, explicou Roberta França, médica geriatra.

Ao contrário da AstraZeneca, a Coronavac e a Pfizer foram vacinas que realizaram estudos neste grupo prioritário e apresentaram perfis de segurança.

“A vacina é recomendada cada uma com a sua especificação técnica e se nós seguirmos rigorosamente a especificação técnica da Pfizer, da Astrazeneca e da Coronavac, certamente nós não vamos ter problemas. Efeito colateral, qualquer droga do mundo pode ter, qualquer vacina no mundo pode ter. AVC, infarto, tudo, qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, pode ter isso a qualquer momento. Se está atrelado a vacina ou não, só o tempo irá dizer, mas não utilizar a vacina da forma como o laboratório explica, realmente, nós estamos incorrendo em um risco e provavelmente também no erro”, afirmou.

A médica esclareceu que as pessoas que tomaram a vacina da AstraZeneca não precisam se preocupar e podem tomar a segunda dose, sem contraindicações. O erro cometido foi usar o imunizante para um grupo específico, como as gestantes e as puérperas, em que ainda não teve estudo.

“Nós temos que lembrar que essas vacinas são absolutamente novas, assim como a própria covid-19, é uma doença nova. Então, todos os dias nós estamos aprendendo a lidar com a doença e vamos a partir de agora entender, inclusive, o comportamento das vacinas. O nosso problema é que estamos sempre contrariando as regras da ciência, nós estamos sempre contrariando aquilo que os fabricantes das vacinas estão falando e estão orientando, então, realmente fica muito difícil”.

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES), a Coronavac será aplicada em gestantes e puérperas com comorbidades em 91 municípios do estado. Já na capital, a vacinação será realizada com a Pfizer ou CoronaVac. Com relação às gestantes sem comorbidades, a vacinação está temporariamente suspensa. A recomendação do Ministério da Saúde é vacinar apenas gestantes com comorbidades exclusivamente com as vacinas da Pfizer ou Coronavac.

Há um indicativo de que o Ministério da Saúde realize, nesta quinta-feira (13), uma entrega de imunizantes contra covid-19 para os estados. A previsão é de que o estado do Rio receba 184,2 mil doses de CoronaVac e 54.750 de Oxford/AstraZeneca. A SES vai reservar 20 mil doses para gestantes e puérperas com comorbidades, sendo 10 mil para primeira dose e 10 mil para segunda. A entrega aos municípios deve ser realizada nesta sexta-feira (14).

Tire suas dúvidas acerca da vacinação para grávidas e puérperas:

– Quais vacinas são recomendadas para as grávidas e puérperas com comorbidades?

Os imunizantes da Coronavac e da Pfizer são recomendadas pelo Ministério da Saúde para a imunização deste grupo prioritário, uma vez que foram realizados estudos clínicos com esta população.

– A gestante ou puérpera que já tomou a primeira dose da Oxford/AstraZeneca, deve tomar a segunda?

Segundo a SES, quanto à aplicação da segunda dose das gestantes que tomaram a AstraZeneca, a pasta aguarda novas orientações do Ministério da Saúde. No momento, essa aplicação também está suspensa.

– É possível ainda ter efeitos colaterais após a segunda dose da Oxford/AstraZeneca?

Sim, é possível a grávida ou a mulher pós-parto ter efeitos adversos após a segunda dose, mesmo sem ter sentido na primeira aplicação. Mas são mais raros os casos. Especialistas recomendam monitoramento médico.

– Quais efeitos colaterais são mais frequentes após a vacinação com a Oxford/AstraZeneca?

Sensibilidade e/ou dor no local da injeção, dor de cabeça, fadiga, dor muscular, mal-estar, febre, calafrios, dor nas articulações, náuseas. A maioria das reações adversas tem um grau leve a moderada e geralmente resolvida alguns dias após a vacinação. Ainda estão sendo investigados os casos de tromboses em grávidas que receberam a vacina. Mas especialistas acreditam que os benefícios do imunizante são melhores do que os riscos de contaminação da covid-19.

Confira como está a vacinação para esse grupo nos municípios:

Rio de Janeiro

A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro informa que retomou, nesta quarta-feira (12), a vacinação contra a covid-19 de gestantes e puérperas com comorbidade, que são as que fazem parte do grupo prioritário. Por orientação do Ministério da Saúde, serão aplicadas apenas as vacinas Pfizer e CoronaVac, de acordo com a disponibilidade.

Para receber a aplicação, é necessário apresentar laudo médico detalhado justificando a recomendação e avaliação da relação risco-benefício para a vacinação, além da assinatura do termo de esclarecimento disponível em coronavirus.rio/vacina. Segundo a pasta, não há, até o momento, previsão de inclusão de gestantes sem comorbidade no esquema vacinal.

A SMS recebeu, na terça-feira (11), 50.310 doses da vacina Pfizer, que são destinadas preferencialmente para pessoas com comorbidades, incluindo gestantes e puérperas.

O município vacina homens de 47 e 48 anos na quinta-feira (13) pela manhã e mulheres de 46 e 47 anos à tarde. Na sexta-feira (14), é dia dos homens com 46 anos e da segunda dose para pessoas de 64 e 65 anos, e sábado (15) é o dia das mulheres de 45 anos.

A SMS aguarda as orientações do Ministério da Saúde sobre a conduta que será adotada para as gestantes que já receberam a primeira dose de AstraZeneca. Tão logo haja um posicionamento, a secretaria fará o comunicado.

Niterói

Seguindo a decisão da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Secretaria Municipal de Saúde suspendeu, na terça-feira (11), a imunização contra a covid-19 para gestantes e puérperas, isto é, mulheres até 45 dias após o parto, já que a cidade recebeu apenas doses da AstraZeneca, enviadas pelo Ministério da Saúde. A medida é provisória até o final da investigação do caso e a Secretaria aguarda uma posição do Ministério.

Os estoques de CoronaVac estão zerados no município. Niterói aguarda nova remessa da vacina pelo Ministério da Saúde, responsável pelo fornecimento das doses. A Secretaria Municipal de Saúde de Niterói está programando a vacinação contra a covid-19 de acordo com a quantidade de vacinas repassadas pelo Ministério da Saúde.

A primeira e segunda dose da vacina AstraZeneca está sendo aplicada em todos os postos para pessoas com comorbidades e deficiência permanente a partir de 40 anos, nesta quarta (12) e quinta-feira (13), e a partir de 35 anos, na próxima sexta-feira (14) e sábado (15). Segundo a prefeitura, pessoas com síndrome de Down e doença renal crônica podem ir em qualquer dia, desde que tenham mais de 18 anos.

Nilópolis

A Prefeitura de Nilópolis informou que a vacinação de primeira e segunda doses da CoronaVac continua suspensa nesta quarta-feira (12) devido a um problema de desabastecimento. A imunização será retomada quando o abastecimento for regularizado pelo Ministério da Saúde.

Nova Iguaçu

A vacinação de primeira e segunda dose da Coronavac segue suspensa no município de Nova Iguaçu, devido a um problema momentâneo de desabastecimento. Será retomada quando o abastecimento do imunizante for normalizado pelo Governo Federal.

Gestantes e puérperas sem comorbidades ainda não foram incluídas no grupo prioritário. Serão incluídas somente quando a Prefeitura de Nova Iguaçu receber doses suficientes de Coronavac ou da Pfizer.

São Gonçalo

Segundo a Secretaria de Saúde de São Gonçalo, ainda não há previsão de recebimento de novas doses da Coronavac. A pasta informa ainda que gestantes e puérperas sem comorbidades não estão no grupo prioritário.

Duque de Caxias

A Prefeitura de Duque de Caxias informou que a vacinação contra a covid-19 para mulheres gestantes e puérperas está suspensa no município, seguindo recomendação da Anvisa, que determina a suspensão imediata do uso da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca, para mulheres gestantes.

O município esclareceu ainda que o Duque de Caxias não está entre as cidades que recebem a vacina Pfizer e que, neste momento, não hádoses da Coronavac disponíveis, tendo todo o quantitativo reservado para a aplicação de segunda dose. 

Mesquita

A equipe de saúde de Mesquita informou que está aguardando nota técnica para o prosseguimento da vacinação em gestantes e puérperas.

As doses disponíveis para a segunda aplicação da vacina da Coronavac acabaram em Mesquita na última segunda-feira (10). Segundo a prefeitura, o município recebeu uma remessa no sábado (8), mas com a procura grande já no primeiro dia, o estoque da cidade foi zerado.

“A orientação é que as pessoas que receberam a primeira dose e já estão no prazo de tomar a segunda aguardem a chegada de novas remessas, visto que ainda não temos previsão para a chegada de novas doses”.

Petrópolis

Atendendo a uma determinação do Governo do Estado, a Secretaria Municipal de Saúde de Petrópolis informou que está suspendendo temporariamente a vacinação contra a covid-19 de puérperas, isto é, mães que tiveram bebês há até 60 dias. A medida é preventiva, em função de recomendação da Anvisa, que já havia orientado, na terça-feira (11), a suspensão da aplicação da vacina AstraZeneca em gestantes.

“É importante lembrar que tanto gestantes quanto puérperas podem ser imunizadas com outras vacinas. O município aguarda apenas a chegada de novas remessas de primeiras doses da Coronavac ou outra vacina recomendada para este público para retomar a aplicação do imunizante neste público”, disse a prefeitura, em nota.

Entre os dias 6 e 10 de maio, 21 gestantes receberam a dose da AstraZeneca. Já as puérperas, cujo atendimento está suspenso a partir desta quarta-feira (12), somam 20 vacinadas com a primeira dose do imunizante em Petrópolis.

“Até esta quarta-feira (12), não recebemos nenhum relato de reações adversas. Porém, aquelas que foram relatadas no país ainda estão em investigação e não existe confirmação de que foram causadas pela vacina da AstraZeneca. Por precaução, a Anvisa está desaconselhando o uso”, explica Aloísio Barbosa, secretário municipal de Saúde, frisando a importância de todos os demais públicos já chamados para a vacinação contra a Covid-19 tomarem a vacina.

Em Petrópolis, a vacinação de gestantes, iniciada por aquelas que têm comorbidades, começou na última quinta-feira (6), e deve ser retomada tão logo o município receba mais doses de Coronavac ou outra vacina indicada para este grupo, para aplicação de primeira dose, ou o Ministério da Saúde conclua a investigação sobre o uso da AstraZeneca neste público.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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