Um amor ao estilo Romeu e Julieta

Araras do BioParque do Rio, na Quinta da Boa Vista, vivem amor proibido há mais de 20 anos

Arara que vive em liberdade na natureza vem todos os dias visitar as outras que moram em viveiro do Zoo do Rio, na Quinta da Boa vista. Na foto, Julieta, a arara visitante com seu RomeuEstefan Radovicz / Agencia O Dia

Dizem que não há distância ou obstáculos para o amor acontecer. A arara-canindé cruza 4km todos os dias entre o Maciço da Tijuca, na Zona Norte do Rio, até o Bioparque da Quinta da Boa Vista. Tudo por um amor antigo e platônico, que já dura cerca de 20 anos. Reza a lenda que a arara vai ao antigo zoológico do Rio para ver uma arara em especial, sua alma gêmea. O romance impossível, já que o casal sempre se viu separado pela grade do viveiro das aves, rendeu à visitante o nome de Julieta, em alusão ao clássico romance do dramaturgo inglês William Shakespeare.

Para a bióloga Angelita Capobianco, trata-se de uma protagonista bastante moderna. “É uma Julieta empoderada, né? Ela é livre, vai e volta para ver o seu Romeu. Faz isso todos os dias, há décadas”, disse.

Tanta fidelidade e lealdade também pode ser explicada. “Esses animais são monogâmicos. Eles formam casal e ficam juntos durante a vida inteira, em geral têm esse comportamento. É uma estratégia reprodutiva comum”, afirma Capobianco.

Julieta chega na Quinta da Boa Vista ainda pela manhã e passa todo o dia do lado de fora, na grade do viveiro, que foi ampliado com a reforma. À noite ela volta para o seu local de dormitório, a Floresta da Tijuca. Segundo a bióloga, ela é a única da espécie no Rio de Janeiro. A idade de Julieta é desconhecida, mas o que se sabe é que ela é uma ave adulta e,  na natureza,  sua espécie vive cerca de 50 anos. Já em cativeiro, pode chegar a 60 anos de vida.

A história de amor é famosa e atrai visitantes, que ficam encantados com a beleza da arara. “Conhecia a história, mas eu nunca tinha visto a cena. Faz alguns anos que eu não vinha ao zoo e tinha esquecido dessa história, na verdade. Quando entrei no viveiro eu vi as pessoas comentando e me recordei. Fiquei feliz de ver, a natureza é emocionante”, conta a engenheira Juliana dos Santos, 38.

Até mesmo sem conhecer a história de amor, quem observa a cena de interação das araras-canindé se apaixona. “Eu entrei no viveiro e reparei que tinha uma arara do lado de fora. Fiquei intrigada, pensei até que ela tinha fugido daqui de dentro. Mas um monitor do bioparque explicou a história de amor das araras, achei lindo. Ao que parece, vi Romeu e Julieta de perto”, brinca a estudante Ana Clara Souza, 24.

O romance de Romeu e Julieta do zoológico do Rio é mesmo impossível. Segundo Angelita, seria um crime apreender uma canindé livre ou soltar a que está no viveiro. “Seria uma prática ilegal e é pelo próprio bem do animal. Nós respeitamos a liberdade dela. Cercear a liberdade dela seria ruim. E soltar um animal desses, que nunca esteve livre, seria expô-lo ao perigo e não sabemos se ele sobreviveria. O que observamos é que esta é uma dinâmica que funciona do jeito que está”.

Com tanto amor, o que não falta é carinho explícito e até um cafuné, mesmo que pela grade. “É uma convivência harmoniosa, há muita interação entre elas. Elas puxam as penas uma das outras, dando bicadas, o que é uma demonstração de carinho”, diz a bióloga.

Apesar da história famosa de amor entre as araras, da Julieta que vai visitar o seu Romeu, não é possível saber se realmente se trata de macho e fêmea. “Só olhando não é possível saber se é macho ou fêmea porque não tem nada que as diferencie, elas são exatamente iguais e o órgão sexual não é aparente. Para isso, é necessário fazer um exame de DNA”, explica a especialista.

Sem romance, mas com amor

Para a bióloga Angelita há uma outra explicação para a canindé que vive livre voltar ao zoológico durante década. A versão é menos romântica, mas, ainda assim é de um amor igualmente admirável e bonito. 

“Esse animais vivem em grupos e a Julieta, por ser única no Rio, ficou sozinha na natureza. É provável que este senso coletivo, a necessidade de estar em grupo tenha trazido ela. As reações dela, o comportamento, nos leva a crer que está bem, saudável e feliz. Ela escolheu voltar diariamente porque encontrou aqui uma família. Essa pode ser também a história de amor de um animal que depois de ficar sozinho encontrou aqui uma referência de lar”.

E a família é grande. Além de 14 araras-canindé (ararauna), tem ainda cinco araras-vermelha (chloropterus) e quatro araracangas (macao). Após a reforma que transformou o zoológico no BioParque do Rio, diversas espécies de aves, 39 ao todo, passaram a ficar juntas em um viveiro de mais de mil metros quadrados. Uma casa grande para um grupo numeroso de 162 animais. Papagaios, periquitos, maritacas, seriema, entre outras aves, se juntaram às araras e formaram uma grande família, a família da Julieta.

O novo Zoo: BioParque do Rio

O antigo jardim zoológico do Rio de Janeiro, após uma reforma de dois ano, passou a ser chamado de BioParque do Rio. O novo conceito de zoológico é  fundamentado no tripé “Educação, Pesquisa e Conservação”;  funciona como um centro de conservação integrada, aliada à instituições nacionais e internacionais e que segue as melhores práticas mundiais em bem-estar. Das 140 espécies que o BioParque do Rio abriga, cerca de 33% sofrem risco de extinção e o objetivo é garantir que os animais possam viver em um ambiente mais próximo ao habitat natural.

As araras estão no local conhecido como Imersão Tropical. Lá estão mais de 40 espécies, em sua grande maioria aves como o simpático tucano-do-bico-preto batizado pela equipe do Bioparque como TucTuc. Os guarás-vermelhos, seriemas e mutuns-do-sudeste são atrações à parte nessa área de quase dois mil metros quadrados onde também vivem cutias, ouriços terrestres e bicho-preguiça.

O ponto alto da experiência nesse grande viveiro de imersão é a revoada das aves, especialmente, das araras, que reaprenderam a voar por meio do fortalecimento de suas musculaturas, antes atrofiadas por viverem em gaiolas, trabalho esse que foi realizado pelas equipes do bioparque.

O  BioParque do Rio funciona, diariamente, das 12h às 17h, com última entrada ao circuito de visitação às 16h. 

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