Onde pegar um passarinho pode custar a vida

Em Belford Roxo, crianças teriam sido mortas após furtarem pássaro. Na feira, onde eles foram vistos pela última vez, preços de gaiolas equivalem a uma compra do mês

São 850 metros, margeando um canal, onde de tudo se vende. Na feira de Areia Branca, em Belford Roxo, entre caldos de cana e pastéis há barracas de eletrônicos, sapatos, perfumes, brinquedos, ferramentas e toda variedade de alimentos embalados. “É Coronavac, de dose única, por R$ 1”, oferecia um vendedor, brincando. Ele segurava cápsulas do veneno chumbinho, cuja comercialização é proibida.

Com R$ 300 é possível levar sabão em pó, linguiça, iogurtes, leite, ovos e carne suficientes para abastecer uma família pequena por um mês. A procedência dos produtos não é informada, mas a maioria é vendida por R$1 ou pacotes do tipo “leve 4 por R$5”.

Mas, é no fim da feira, empilhados, que estão alguns dos itens mais caros: as gaiolas de passarinhos. Feitas à mão e detalhadamente trabalhadas na madeira, os preços variam de R$ 80 a R$ 450. As pintadas com temas tribais ficam acima de R$ 100; as com reforço de parafusos são as mais caras. Logo atrás da barraca, cerca de dez pessoas comercializavam pássaros: do Coleiro ao Sabiá.

Teria sido uma gaiola desse tipo, com um passarinho, que Lucas Matheus, 9 anos, Alexandre Silva, 11, e Fernando Henrique, 12, teriam furtado, no dia 27 de dezembro. A última imagem dos meninos é de uma câmera, a caminho da feira. “As crianças aparentemente chegaram à feira sem a gaiola. Mas, antes de sair do Castelar, foram vistos com ela”, disse Uriel Alcântara, responsável pela investigação. Uma testemunha afirmou que eles foram torturados e mortos por traficantes do Castelar, que não perdoaram o possível furto e venda da gaiola pelo trio. “Passarinhos de canto costumam ser caros. Qualquer animal destes vale, tranquilamente, mil, dois, três, cinco mil reais. A qualidade do animal que vai elevar seu valor”, explicou o delegado.

Na feira, muitos param para ver os passarinhos, que cantam alto e batem em vão as asas, na esperança de fugir das pequenas caixas de transporte. Mas, ao se informarem dos preços, desistem da compra. “Consigo comprar aqui na feira o que não posso no mercado”, disse um frequentador. Belford Roxo possui um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano do Estado, na posição 71 dos 92 municípios.

A investigação sobre o paradeiro dos meninos apura se os corpos teriam sido jogados no Rio Botas, onde o mesmo canal da feira desemboca.

Via: O Dia
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