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Na pandemia, cerca de 500 lojas baixaram as portas na Feira de São Cristóvão

Além da falta de movimento de clientes, comerciantes reclamam do fornecimento irregular de energia elétrica e água

Rio de Janeiro 11/05/2021 – Feira de São Cristovão passa por dificuldades. Na foto acima o Mauro Guerra proprietário de uma das lojas da feira. Foto: Luciano Belford/Agencia O DiaLuciano Belford/Agencia O Dia

Rio – Comerciante no Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, Ana Cláudia Sales, de 41 anos, no momento busca renda em outra feira. Enquanto os negócios não vão bem no pavilhão de São Cristóvão, ela retira os itens da loja ‘Vida Presente’ e os expõem a cerca de oito quilômetros dali, em Bonsucesso, na Praça das Nações. Em meio a dívidas e processos que dificultam a gestão do espaço, mostradas desde segunda-feira na série de reportagens ‘Alvoroço na Feira’, os donos de loja do pavilhão buscam alternativas para manter o sustento. Durante a pandemia, cerca de 500 lojas baixaram as portas no local.

“Durante a semana não aparece mais ninguém na feira. Aos sábados e domingos, abrimos. Meu marido fica na loja enquanto faço a feira em Bonsucesso. Nesse nosso trecho da feira estamos praticamente sozinhos”, diz Ana Cláudia, que teve que dispensar duas funcionárias.

Perto da loja dela, um dos comércios que encerraram as atividades temporariamente é o restaurante ‘Xodó da Feira’, de Mauro Guerra, de 53 anos. Oito funcionários foram demitidos. A alternativa encontrada foi trabalhar em outro espaço da feira, a ‘Barraca Caruaru’, que vende queijos.

“Mas pretendo reabrir meu restaurante assim que o movimento melhorar e a vacinação contra a covid avançar na cidade. Mas, por enquanto, é inviável. Na loja de queijos, vende pingado, mas não para. Como o dono é idoso e tem ficado em casa, me dispus a ajudá-lo. Fizemos uma parceria”, conta Mauro.

A realidade na feira, à exceção dos fins de semana, quando o movimento vem sendo retomado progressivamente, é de ruas vazias. Na frente de algumas lojas, é possível ver o mato crescendo, como na ‘Barraca do Beto’. O restaurante, especializado na carne de sol, fechou temporariamente em abril.

“Não compensava ficar aberto. Tínhamos cerca de 500 clientes por dia no fim de semana. Antes de fecharmos, o número caiu para 20, 30 pessoas”, diz Thiago Farias, de 33 anos, que administra o negócio com mais três irmãos.

Delivery deu um alívio

Uma das lojas que não baixaram as portas é a ‘Barraca do Guarabira’, de Edvando de Freitas, de 40 anos, o Vando Guarabira. Mesmo durante o período em que a feira ficou fechada por determinação do poder público, entre março e setembro de 2020, as vendas prosseguiram por delivery. A queda de receita que, segundo ele, chegou a 80%, hoje está em cerca de 60%.

“Mesmo com a loja aberta tive que pegar empréstimo para manter o negócio. Toda a gordura que tínhamos foi queimada. O delivery nos ajudou a ir levando com a barriga e a manter o negócio. Acho que, se fechássemos, seria difícil reabrir”, diz Guarabira, que teve que demitir 16 funcionários:

“Nos últimos 15 dias o movimento vem voltando na feira. Assim que normalizar pretendo readmitir o pessoal que ainda estiver disponível no mercado”.

Fornecimento irregular de luz e água prejudica comerciantes

Além da pandemia, o fornecimento irregular de energia elétrica e de água no pavilhão também tem sido um obstáculo para os negócios. Como mostrado nas reportagem anterior desta série, a Feira de São Cristóvão acumula cerca de R$ 40 milhões em dívidas. Ente os credores estão a Light e a Cedae, que interromperam os serviços no espaço em 2017 por falta de pagamento. A feira tem sido abastecida por carros-pipa e geradores de energia.

“Chega por volta de 18h temos que fechar as portas. Quem não tem gerador próprio, não consegue trabalhar”, diz Ana Cláudia.

“Mesmo com a nossa cota-parte em dia, ficamos prejudicados”, acrescenta Artidonio Bezerra, de 67 anos, marido de Ana Cláudia, referindo-se à mensalidade que os feirantes devem pagar para custeio de serviços de manutenção e conservação.

A comissão que administra a feira disse que, devido à pandemia, que gerou queda de público e aumento da inadimplência da cota-parte pelos feirantes, as despesas estão maiores que as receitas no pavilhão. “Com isso, fica inviável darmos um serviço de qualidade e de excelência a todos. Pedimos ao público que volte a frequentar a feira, trazendo a receita para que possamos cumprir nossas obrigações”, diz Magnovaldo Pereira, membro da comissão.   

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