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Mãe de Paulo Gustavo é homenageada por mulheres que perderam os filhos contra a covid-19

Comparação de março e abril de 2021 contra o mesmo período em 2020 mostra um aumento no número de mortes em adultos na faixa de 20 a 59 anos pela doença

O ator Paulo Gustavo era muito colado com sua mãe, dona DéaReprodução / Instagram

Rio – “A morte não é o fim, mas o começo de uma vida eterna”, com essas palavras, Édina Rodrigues relembra a morte de seu filho, Washington Correa Faria, de 43 anos, que foi vítima da covid-19 após ser contaminado em meados de dezembro. Ela deixa uma mensagem de solidariedade para Déa Lúcia Amaral, mãe do ator Paulo Gustavo, 42, que morreu após uma batalha de 50 dias contra a doença na noite de terça-feira (4). Déa era a grande inspiração para a carreira do artista e teve um duro Dia das Mães, como milhares de mulheres que perderam seus filhos na pandemia. No Estado do Rio, o vírus já matou mais de 45 mil pessoas.

A morte do ator provocou comoção nacional entre a noite de terça e quarta. A Prefeitura de Niterói, cidade em que passou sua vida inteira, decretou luto oficial de três dias e Paulo pode receber uma rua com o seu nome em uma homenagem póstuma do município. Ele era muito próximo de sua mãe, Déa Lúcia, e chegou a realizar uma peça musical que falava sobre os dois, intitulada “O filho da mãe”. Com seu jeito espontâneo e irreverente, dona Déa também foi representada pelo artista nos filmes “Minha mãe é uma peça”, como a personagem Dona Hermínia. “Minha mãe é uma peça 3” foi exibido na TV Globo, na noite de quinta-feira (6), em homenagem a Paulo Gustavo.

“É tão difícil”, desabafa Édina antes de começar a falar sobre a tragédia. “É um caso que dói muito, porque veio de repente e assustou todos nós. Eu tenho um pensamento que não cai uma folha sem a permissão de Deus, e tudo que está nas mãos dele vai ser como ele quer. Nossos filhos, parentes que estamos perdendo pertencem a ele”, comenta, referindo-se à morte do ator.

Édina deixa uma mensagem de carinho para dona Déa e também as mães que perderam seus filhos para a covid-19. “Eu deixo um abraço, uma palavra de calma a todas as mães, que tenham fé. Há coisas que são irreversíveis, mas precisamos seguir caminhando e amando. Todas as mães que sofrem pelos seus filhos”, afirma.

O filho de Édina, Washington Correa Faria, era pastor e começou a sentir os sintomas antes do Natal de 2020. Poucos tempo depois, ele foi levado ao hospital em situação grave, e em seguida constataram um quadro de morte cerebral por conta de complicações influenciadas pela covid-19. Ele foi sepultado no dia 31 de dezembro.

Outra mãe que compartilha uma mensagem de carinho para dona Déa e todas que sofrem pela perda de um filho para a covid-19 é Heidy Almeida, de 30 anos. Ela estava grávida e perdeu o seu marido e o bebê por causa da doença.

“Infelizmente essa doença veio para mostrar realmente que nós somos um sopro. Aqui é tudo muito breve, e se não nos amarmos todos os dias como se fosse a última vez, a vida não tem significado. Tudo isso serve para mostrarmos que realmente precisamos amar cada dia o máximo que puder, demonstrar e falar, pois nunca sabemos o momento em que temos alguém e de repente não estamos mais”, lamenta.

Heidy e o seu marido foram contaminados quase ao mesmo tempo e ficaram em situação grave pela covid-19. Os dois foram intubados no fim março deste ano. Na época, ela estava grávida de 24 semanas. No dia 8 de abril foi necessário um realizar o parto por cesárea do bebê Benjamin de Almeida, que não resistiu após quatro dias. Sendo atendido em outro hospital, o marido de Heidy, Weslei de Oliveira, faleceu no mesmo dia do nascimento do filho.

“Essa doença levou minha família. Se não fosse por causa da covid-19 eu não teria que ter um parto tão cedo. Agora eu estou me recuperando da dor. Eu peço para as pessoas se conscientizarem de que não é uma brincadeira, eu não tenho nenhum tipo de comorbidade, sempre tive uma vida ativa, peguei essa doença e quase não voltei.”

Ela faz um apelo para que as pessoas mantenham os cuidados e o distanciamento social. Heidy afirma que tanto ela quanto o seu marido sempre mantiveram todos os cuidados desde o início e não sabe ao certo como se contaminou. A hipótese é que pode ter sido através do trabalho do seu marido, Weslei, que era caminhoneiro, ou após alguma compra em supermercado.

“Se conscientizem e cuidem de suas famílias. Essa doença é muito complicada, você só precisa de um segundo, algo que você tenha pegado, ou quando nos protegemos e outra pessoa não faz o mesmo, então nos contaminamos de qualquer forma. Todos precisam colaborar. É muito difícil”, diz ela.

Qual é a real influência da asma em relação a covid-19

Foi citado em um contexto equivocado que o ator Paulo Gustavo teria problemas de asma, portanto, que isso poderia ter sido um fator que influenciou diretamente na morte do ator. Contudo, a atriz Tatá Werneck, uma das melhores amigas dele, explicou em suas redes sociais que o ator teve o problema há 10 anos, mas que ele não sofria mais com a doença.

De acordo com os dados do 17° Boletim Epidemiológico de covid-19 da Prefeitura do Rio, oferecidos pela Secretaria Municipal de Saúde, a asma é a sétima comorbidade que mais influenciou para o aumento do número de pessoas hospitalizadas pela doença no município. Problemas cardíacos, hipertensão e diabetes são as três enfermidades que mais atingem os contaminados pelo vírus.

Ainda segundo estudo feito pela Associação Médica Brasileira (AMB), em conjunto com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, as três entidades concluíram que não existem evidências concretas de que a asma pode provocar um risco maior de infecção pela covid-19. No entanto, casos graves da doença podem influenciar em um agravo pela contaminação pelo vírus.

O DIA procurou a médica geriatra e psiquiatra Roberta França para comentar a respeito da influência que a doença pode ter para contribuir na piora dos quadros de jovens e adultos que são contaminados pela covid-19. Ela comentou que por ser uma doença pulmonar, existe uma correlação entre ambas as doenças.

“Sobre a morte do Paulo Gustavo, levantam-se muito as questões sobre as comorbidades, e se seria asma uma comorbidade, a ponto de causar o nível de agravamento que ele teve. Na verdade, todas as doenças pulmonares podem prejudicar. Elas são um potencializador visto que a covid-19 atua muito no pulmão. Sabemos que o caminhar progressivo da doença atinge também os rins, o coração e o sistema nervoso central, mas a base da doença é pulmonar”, afirmou.

Contaminação e mortes de adultos dispararam na terceira onda da doença

Comparando os dados dos meses de março e abril de 2020, quando houve a primeira onda da covid-19, e o mesmo período deste ano, através de relatórios oferecidos pela Secretaria Estadual de Saúde do Rio, foi possível verificar um aumento expressivo no número de contaminações pela covid-19 seguido por uma maior taxa de morte entre adultos.

A pesquisadora em saúde e membro do comitê de combate ao coronavírus da UFRJ, Chrystina Barros, afirmou que o risco de vida relacionado à covid-19 atinge pessoas de todas as idades e classes sociais. Ela reforçou as orientações de distanciamento social e proteção contra a doença.

“É preciso cuidar da saúde e acreditar na gravidade da doença. Não é exagero quando reiteramos que não devemos aglomerar. Aglomeração não é só quando temos 50 pessoas. Com o atual nível de transmissão da doença, duas pessoas sem distância já são a aglomeração de que o vírus precisa. Temos que manter a distância interpessoal, usar máscara todo o tempo e circular apenas quando for essencial. Basta uma brecha. Não existe barreira perfeita. Precisamos diminuir riscos”, concluiu.

Confira abaixo as contagens comparadas por faixa-etária indicando a contaminação e o número de mortes pela doença durante o período de março e abril de 2020 e 2021:

Adultos entre 20-29 anos:

(Março e abril) 2020 – 5711 casos
90 óbitos
(Março e abril) 2021 – 16954 casos
99 óbitos

Adultos entre 30 e 39 anos:

(Março e abril) 2020 – 12663 casos
263 óbitos
(Março e abril) 2021 – 22860 casos
325 óbitos

Adultos entre 40 e 49 anos:

(Março e abril) 2020 – 12.355 casos
619 óbitos
(Março e abril) 2021 – 23947 casos
781 óbitos

Adultos entre 50 e 59 anos:

(Março e abril) 2020 – 9212 casos
1003 óbitos
(Março e abril) 2021 – 21114 casos
1361 óbitos

* Estagiário, sob supervisão de Gustavo Ribeiro

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