Desabamento em Rio das Pedras pode ser consequência de construção irregular, diz engenheiro

O doutor em gerenciamento de riscos afirmou, ao ver as imagens do local, que o edifício pode ter sido erguido sem a orientação de um engenheiro

Bombeiros trabalham para resgatar vítimas que estão presas nos escombrosDaniel Castelo Branco/Agência O DIA

Na madrugada desta quinta-feira, 3, um prédio de quatro andares desabou em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma criança de 2 anos morreu, pelo menos quatro pessoas ficaram feridas e foram levadas a hospitais e um homem continua soterrado. O engenheiro Geraldo Portela, doutor em Gerenciamento de Riscos, lamentou o desabamento do prédio de quatro andares, mas disse ser um fato que tem ocorrido com uma certa frequência, o que mostra uma falha na gestão do plano urbano da cidade.

Em entrevista ao Bom dia Rio, na TV Globo, Portela afirmou, ao ver as imagens do local, que o edifício pode ter sido erguido sem a orientação de um engenheiro. E se foi, houve uma falha técnica, já que as lajes parecem ser pesadas demais para os pilares.
A gente sempre tem que respeitar o desenvolvimento da investigação, mas nós estamos vendo aí duas lajes que parecem ter escorregado, saído do direcionamento de um desmoronamento normal. Parecem equipamentos muito pesados para edificação, para as características da edificação. Isso mostra indícios de uma construção desordenada, fora dos padrões técnicos de engenharia. Parece uma laje muito pesada, construção muito frágil, talvez pilares insuficientemente dimensionados, tanto que, mesmo com a queda, elas permaneceram íntegras. Provavelmente, houve um amortecimento pelo próprio entulho. Isso mostra o descompasso estrutural. Tudo leva a crer que não passou pelo crivo de um engenheiro ou, se passou, houve uma falha técnica porque não parece o certo ter este tipo de laje numa estrutura onde você não vê o posicionamento de pilares”, disse.

Portela também comentou sobre o trabalho dos socorristas nos escombros, e destacou que o trabalho é muito delicado, porque há risco tanto para as vítima quanto para os bombeiros.

“De alguns equipamentos, nós conseguimos identificar, pelo menos, duas ferramentas desencarceradoras. Isso é um alívio para quem está acompanhando porque eles são capazes de romper vigas metálicas e conseguir penetrar em todos os escombros. São os mesmos usados para quando se tem alguém preso nas ferragens de um carro. Mas é uma operação bastante delicada tanto para as vítimas quanto para os bombeiros. É preciso ter cautela, analisar o cenário, ter suporte técnico. O deslocamento de viaturas e máquinas mais pesadas para esta região é difícil, é uma região de ocupação desordenada.”, comentou.

O engenheiro ressaltou que as pessoas que moram nesse tipo de construção não se dão conta de que um prédio com a aparência de ser bem construído possa ter essas falhas.

“Essas pessoas entram sem ter a consciência situacional, a noção do perigo em que estão se metendo e acabam sendo vítimas. Em uma uma época de pandemia, em que as pessoas consideram sua residência ou local abrigado como o seu “castelo” e no meio da madrugada acontece uma coisa como essa?”, indagou.

Ele alertou que um desabamento com o do prédio pode ser seguido por novos desmoronamentos de construções vizinhas.

“É preciso trabalhar com as evidências objetivas, que são os indícios técnicos daquele evento escalonar para uma situação ainda mais grave. Imagine que nessa região as pessoas utilizam botijões de gás e as instalações elétricas não são feitas com aqueles dispositivos de proteção necessários para interromper a transmissão de energia quando acontece um problema como esse. São equipamentos mais caros, disjuntores, redundâncias de proteção que, muitas vezes, não são colocadas. Então você pode ter linhas energizadas, vazamentos de água, misturar água com energia e pode ter também novos desabamentos porque percebe-se, pelas imagens, que não são imóveis construídos dentro das normas de engenharia. Essas lajes que estão sobrecarregando esses imóveis estão descarregando força sobre os pilares, e essas pessoas têm a resistência de sair? Errar é humano, mas aqueles fatores que induzem a cometer erros, nós podemos evitá-los. A desinformação, principalmente”, afirmou.

O doutor fez um apelo para que as pessoas deixem esses locais imediatamente:

“Depois você vai recuperar todo o seu patrimônio, mas esses locais estão, pelas imagens, sob alto risco de desmoronamento”, concluiu.

Via: O Dia
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