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Da ‘janelinha’ no sorriso infantil ao rádio na cozinha, a simplicidade reforça a beleza da vida

"Será que estamos todos esperando um grande acontecimento quando, mais do que nunca, ficou claro que precisamos de vida? Essa mesma: diária, rotineira, simples, boba... E corriqueiramente bela"

“Em que instantes passamos a dar razão somente ao caro e à ostentação e desprezamos a escuta, pura e simples, de momentos triviais?”Arte: Kiko

A amenidade da temperatura do outono era sentida pela janela aberta do quarto, num sábado pela manhã. As minhas suculentas já estavam à espera de serem regadas. Lá na rua, o alto-falante denunciava a presença da Kombi do peixe. Na cozinha, o rádio seguia a sua sintonia na Tupi. Esses e vários outros sons da minha rotina ficaram ainda mais perceptíveis desde o início da pandemia. Parece até que os aviões, já na sua rota de pouso para o Aeroporto do Galeão, aumentaram a sua frequência. Agora, consigo ouvi-los com muito mais nitidez ao sobrevoarem a minha casa.

Talvez, para quem vê de fora, todos esses sejam apenas momentos bobos. E é justamente sobre isso que tenho refletido: o que alçamos à categoria de importante ou não em nossa vida.

Assim, me recordo de uma foto que vi nas redes sociais de uma ex-colega de trabalho com seus acessórios marcantes. Comentei que sempre conversávamos no jornal sobre brincos, colares, anéis e afins. Bem-humorada, ela ressaltou: “Você sempre chique, eu a perua. Que saudade!”. Enfim, amenidades…

Seria também bobagem eu ter me encantado com o sorriso típico das crianças em um post de outra jornalista? Ela mostrava o novo corte de cabelo do filho, a pedido dele mesmo, mas a ‘janelinha’ denunciava a despedida dos dentes de leite, atraindo a minha atenção. Do outro lado da tela, ela completou: “Esses sorrisos salvam a gente”.

Nessa onda de pensamentos “tolos”, relembro que, dia desses, o meu ex-chefe Carlos Silva me contou que tinha ido à rua renovar sua carteira de habilitação e ainda precisava fazer o exame de vista, já agendado. E completou: “Bobagem ficar dizendo essas coisas irrelevantes”. Tudo isso me vem à memória agora, ao analisar a balança em que colocamos as situações do nosso cotidiano.

Em que instantes passamos a dar razão somente ao caro e à ostentação e desprezamos a escuta, pura e simples, de momentos triviais? Será que detalhes tão bobos do nosso dia a dia não podem revelar muito sobre nós? Como os sons da minha manhã de sábado em casa, os acessórios que nos trazem saudade do trabalho presencial, o sorriso da criança que recarrega as energias da mãe, os compromissos do meu ex-chefe? Será que estamos todos esperando um grande acontecimento quando, mais do que nunca, ficou claro que precisamos de vida? Essa mesma: diária, rotineira, simples, boba… E corriqueiramente bela.

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