Chefão do CV sai da cadeia mesmo com mandado de prisão ativo

Polícia Civil chegou a avisar a Secretaria de Administração Penitenciária sobre nova ordem de prisão, mas traficante ganhou a liberdade e foi pra shopping

Rio – Integrante da cúpula do Comando Vermelho (CV), Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, de 49 anos, deixou uma das unidades do Complexo de Gericinó, em Bangu, na última terça-feira (27), pela porta da frente, com um mandado de prisão ativo. 

Ele foi solto pela Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), mesmo com a Polícia Civil alertando, horas antes da soltura, de que havia um mandado de prisão, expedido duas semanas antes, por conta de um homicídio. A Seap diz que consultou o Tribunal de Justiça e enviou o documento à reportagem. Nele, o TJ diz que não há mandado de prisão. No entanto, a consulta que a pasta realizou ao tribunal faz referência a outro processo de Abelha, em que ele realmente não possui mandado. 

Em nota, o Tribunal de Justiça disse que notificou a Seap e a Polinter do mandado por homicídio, por conta da morte de Ana Cristina Silva, de 26 anos, atingida por um tiro durante uma invasão de criminosos do CV ao Complexo do São Carlos, na Zona Norte do Rio. Ela seguia para o bar onde trabalhava, quando ficou no meio do fogo cruzado e tentou proteger o filho de apenas três anos. De acordo com investigações, Abelha, que é uma antiga liderança da organização criminosa, ordenou de dentro da Penitenciária Gabriel Ferreira Castilho, Bangu 3, a invasão ao conjunto de favelas.

Por conta disso, no último dia 14 de julho, o juiz Alexandre Abrahao Dias Teixeira, da 3ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ), assinou o mandado e decretou que ele fosse cumprido. De acordo com a assessoria do TJ, os ofícios sobre a decisão foram encaminhados à Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), que teria confirmado o recebimento, e à Polinter, especializada da Polícia Civil.

Mesmo com a determinação para que Abelha seguisse preso em decorrência deste novo crime, ele foi beneficiado no dia 20 de julho com um alvará de soltura, devido a outro processo. A Seap, então, consultou o TJ, que, na tarde do dia 26, respondeu não ter mandado de prisão em relação a esse processo.

Sabendo que Abelha estava para sair, a Polícia Civil, às 20h57 do dia 26 de julho, avisou à Seap de que constava um mandado de prisão pendente contra Abelha, o que indicava que ele deveria permanecer preso. Mesmo assim, ele foi colocado em liberdade.

No mesmo dia, Abelha foi a um shopping da Zona Norte comprar roupas e a um baile funk, onde até subiu ao palco para comemorar sua liberdade.

O traficante integra o grupo chamado de ‘conselho’, onde os criminosos com maior posição hierárquica dentro da facção tem poder de decisão. Esses líderes, mesmo presos, são os responsáveis por coordenar negócios clandestinos a nível estadual e nacional, pela organização financeira e por determinar invasões territoriais a comunidades controladas por rivais.

Abelha tem forte influência nas favelas do Santo Amaro, Mangueira, Manguinhos e Complexo do Alemão. Por conta do seu forte poder de decisão, ele, que estava preso desde 2002, chegou a ser transferido para presídios federais duas vezes.

Confira as notas enviadas pela Polícia Civil, TJ e Seap:

 Polícia Civil:

No início da noite do dia 26 de julho de 2021, a Secretaria de Polícia Civil foi demandada pela SEAP, através da DC-Polinter, acerca da realização do NADA CONSTA do nacional WILTON CARLOS RABELLO QUINTANILHA, filho de DULCINEA MARIA MACEDO RABELLO, vulgo “ABELHA”.

Atualmente, por determinação do Conselho Nacional de Justiça, a responsabilidade pela análise do nada consta dos presos beneficiados por alvarás de soltura é das próprias varas criminais. A Polícia Civil, através da DC-Polinter, somente atua em colaboração e em casos específicos, como no dos beneficiados menores de 21 anos ou quando o sistema do TJ estiver fora do ar.

Não obstante, mesmo a referida consulta não estando enquadrado nas hipóteses acima, foi informado à SEAP que constava outro mandado de prisão preventiva com o status de PENDENTE de cumprimento nos sistemas da Polícia Civil.(confirmando que havia outro mandado expedido em face de WILTON CARLOS RABELLO QUINTANILHA, vulgo “ABELHA”)

O referido mandado foi expedido pelo Cartório da 3ª Vara Criminal, no dia 14 de julho de 2021, nos autos do processo 0171637-16.2020.8.19.0001.

Seap:

A SEAP esclarece que em 20 de julho recebeu o alvará de soltura da pessoa citada e consultou o TJRJ quanto a existência de pendências judiciais. Em resposta recebida no dia 26 de Julho, foi certificado, após consulta ao Banco Nacional de Mandados de Prisão e os bancos de dados internos do TJRJ, que não havia impedimento para o cumprimento do alvará de soltura.

A SEAP informa, ainda, que não possui acesso ao banco de dados dos mandados de prisão. Tal análise é feita pelo próprio Tribunal de Justiça.

Tribunal de Justiça:

Os ofícios informando sobre os mandados de prisão foram enviados à SEAP, que confirmou o recebimento, e à Polinter. Não há nova decisão sobre revogação dos pedidos de prisão. O caso está para conclusão do juiz Alexandre Abrahão

 

Via: O Dia
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