‘A cultura do medo está implantada aqui’: moradores do Jacarezinho se reúnem um mês após operação

Líder comunitário classificou a ação, que terminou com 28 mortos, como chacina: 'Vida de favelado não interessa', ressaltou. Mãe de um dos mortos lamentou que bebê nascerá órfão de pai. 'O que falar pra essa criança?', questionou ela

Moradores do Jacarezinho e entidades de direitos humanos se reuniram para debater mortes provocadas em ação da polícia há um mês na comunidadeEstefan Radovicz/ Agência O Dia

Rio – Líderes comunitários e representantes da Defensoria Pública, da Ordem de Advogados do Brasil (OAB/RJ) e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) se reuniram na manhã deste domingo, na comunidade do Jacarezinho, Zona Norte do Rio, para um ato em memória às 28 pessoas mortas durante operação realizada pela Polícia Civil há exatamente um mês. Na ocasião, um policial civil morreu, além de outras 27 pessoas apontadas como criminosas pelo Estado. Foi a operação mais mortal da história do Rio.

Adriana Araújo, mãe de Marlon, um dos mortos, esteve no encontro ao lado de Isabelle, que está grávida e é viúva do homem que morreu. “Essa criança aqui na barriga da mãe deveria ouvir falar bem do Estado, de um Estado que protege. Mas o que falar pra essa criança? Ela vai ser órfã de pai. O Estado matou o seu pai. O Estado não é confiável. Ele nos mata. Todo dia”, desabafou Adriana.

“A cultura do medo está implantada aqui. Essa chacina não foi a primeira, e infelizmente não será a última. Vida do favelado não interessa. Com isso, a gente perde nossa organização. Perdemos muito. Cada elemento que a gente não consegue conscientizar é uma perda”, afirmou Rumba Gabriel, líder comunitário do Jacarezinho. Para Rumba, a expectativa é que nos próximos meses seja criado um memorial às pessoas mortas na operação na entrada do Jacarezinho.

“A denúncia era de que jovens estavam sendo aliciados pelo tráfico, mas esse argumento é uma falácia, inaceitável. Qualquer pessoa vinculada à realidade sabe que há décadas esses espaços não têm condição de cidadania. Esses jovens só têm relevância para o Estado quando cometem um ato de infração, um crime. Não vamos aceitar esse ridículo argumento com a desculpa de que foi para proteger os jovens”, disse Margarida Prado, presidente da comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ.

Via: O Dia
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